No dia 15 de Novembro de 2022 nossa amada Umbanda completará 114 anos ! Convido os amigos a conhecerem os detalhes da fundação da nossa religião através da leitura da Obra Origens da Umbanda do autor Padrinho Juruá.
Transcrevo abaixo um trecho da Página 17 dessa obra:
15 DE NOVEMBRO DE 1908
Zélio foi convidado a participar da sessão e José de Souza determinou que ele tomasse lugar à mesa. Tomado por uma força estranha e alheia a sua vontade, Zélio levantou-se e disse: “Aqui está faltando uma flor”. Saiu da sala indo ao jardim e voltando logo após com uma flor, que colocou no centro da mesa. Esta atitude causou um enorme tumulto entre os presentes, principalmente porque, ao mesmo tempo em que isso acontecia, ocorreram surpreendentes manifestações de Índios e Pretos-Velhos em todos os médiuns da Mesa de Trabalho Kardecista.
O diretor da Sessão Kardecista achou aquilo tudo um absurdo e advertiu-os, com aspereza, citando o “seu atraso espiritual” e convidando-os a se retirarem. Estava caracterizado o racismo espirítico desde aquele instante, e infelizmente perdura até hoje.
Novamente, essa força estranha tomou o jovem Zélio e através dele um Espírito falou: “Por que repeliam a presença dos citados Espíritos, se nem sequer se dignaram a ouvir suas mensagens. Seria por causa de suas origens sociais e da cor?”. A essa admoestação da entidade, que estava com o médium Zélio, deu-se uma grande confusão, todos querendo se explicar, debaixo de acalorados debates doutrinários, porém a entidade “resoluta” mantinha-se firme em seus pontos de vista.
Nisso, um vidente pediu que a Entidade se identificasse, já que fora notado que ela irradiava uma luz positiva. Ainda mediunizado, através do médium Zélio o Espírito respondeu: “Se querem um nome, que seja este: sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque, para mim, não haverá caminhos fechados”.
O vidente interpelou a entidade dizendo que ele se identificava como um índio, mas que via nele restos de trajes sacerdotais. A entidade respondeu então: “O que você vê em mim, são restos de uma existência anterior. Fui padre jesuíta e o meu nome era Gabriel Malagrida. Acusado de bruxaria, fui sacrificado na fogueira da Inquisição, em Lisboa, no ano de 1761. Mas em minha última existência física, Deus concedeu-me o privilégio de nascer como Caboclo brasileiro”.
E ainda, usando o médium, anunciou o tipo de missão que trazia do astral: fixar as bases de um culto, no qual todos os Espíritos de Caboclos e Pretos-Velhos poderiam executar as determinações do Plano Espiritual, e que no dia seguinte (16 de novembro de 1908) manifestaria na residência do médium, às 20h00min, e fundaria uma Tenda Espírita que falaria aos pobres, humildes, doentes, necessitados do corpo da alma, onde haveria igualdade para todos, encarnados e desencarnados. E ainda foi guardada a seguinte frase, que a entidade pronunciou no final: “Levarei daqui uma semente e vou plantá-la nas Neves (bairro onde o médium morava) onde ela se transformará em árvore frondosa”.
Durante o desenrolar da entrevista, entre muitas outras perguntas, o vidente teria perguntado se já não bastariam às religiões já existentes e fez menção ao Espiritismo. O Caboclo respondeu da seguinte forma: “Deus, em sua infinita bondade, estabeleceu na morte, o grande nivelador universal, rico ou pobre, poderoso ou humilde, todos se tornariam iguais na morte, mas vocês, homens preconceituosos, não contentes em estabelecer diferenças entre os vivos, procuram levar essas mesmas diferenças até mesmo além da barreira da morte. Por que não podem nos visitar esses humildes trabalhadores do espaço, se apesar de não haverem sido pessoas socialmente importantes na Terra, também trazem importantes mensagens do além?”.
Ao final, o vidente fez a seguinte pergunta: pensa o irmão que alguém irá assistir o seu culto? Ao que o Caboclo respondeu: “Cada colina de Niterói atuará como porta-voz anunciando o culto que amanhã iniciarei”.
16 DE NOVEMBRO DE 1908 – A PRIMEIRA SESSÃO
Zélio de Moraes, em 1975, com 83 anos de idade, na tranquilidade do sítio em que reside em Cachoeiras de Macacú (Boca do Mato), relatou o que ocorreu no dia seguinte, 16 de novembro de 1908 à repórter e dirigente de Umbanda, Sra Lilia Ribeiro:
Minha família estava apavorada. Eu mesmo não sabia explicar o que se passava comigo. Surpreendia-me haver dialogado com aqueles austeros senhores de cabeça branca, em volta de uma mesa onde se praticava um trabalho, para mim desconhecido. Como poderia, aos 17 anos, organizar um culto? No entanto, eu mesmo falara, sem saber o que dizia e porque dizia. Era uma sensação estranha: uma força superior que me impelia a fazer e a dizer o que nem sequer se passava pelo meu pensamento.
E no dia seguinte, em casa de minha família, na Rua Floriano Peixoto, 30, em Neves, ao se aproximar à hora marcada – 20h00min – já se reuniam os membros da Federação Espírita, seguramente para comprovar a veracidade do que fora declarado na véspera; os parentes mais chegados, amigos, vizinhos e, do lado de fora, grande número de desconhecidos. Às 20h00min, manifestou-se o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Declarou que se iniciava, naquele momento, um novo culto em que os Espíritos dos velhos africanos, que haviam servido como escravos e que, desencarnados, não encontravam campo de ação nos remanescentes das seitas negras, já deturpadas e dirigidas quase exclusivamente para trabalhos de feitiçaria, e os índios nativos da nossa terra, poderiam trabalhar em benefício dos seus irmãos encarnados, qualquer que fosse a cor, a raça, o credo e a condição social. A prática da caridade, no sentido do amor fraterno, seria a característica principal deste culto, que teria por base o Evangelho de Jesus e como Mestre Supremo o Cristo.
Em seguida, o Caboclo fez uma série de revelações sobre o que estava à espera da humanidade: “Este mundo de iniquidades mais uma vez será varrido pela dor, pela ambição do homem e pelo desrespeito às leis de Deus. As mulheres perderão a honra e a vergonha, a vil moeda comprará caracteres e o próprio homem se tornará efeminado. Uma onda de sangue varrerá a Europa (nota do autor: 1a Guerra Mundial), e quando todos acharem que o pior já foi atingido, uma outra onda de sangue (nota do autor: 2a Guerra Mundial), muito pior do que a primeira voltará a envolver a humanidade”.
No final dessa reunião, o Caboclo ditou certas normas para a sequência dos trabalhos, inclusive atendimento absolutamente gratuito, roupagem branca, simples, sem atabaques, nem palmas ritmadas e os cânticos seriam baixos, harmoniosos. A esse novo tipo de culto que se formava nessa noite, a entidade deu o nome de “UMBANDA”, que seria “a Manifestação do Espírito para a Caridade”. Posteriormente, reafirmou à Leal de Souza que “Umbanda era uma Linha Branca de Demanda para a Caridade”. Deve-se ressaltar que, inicialmente o Caboclo chamou o novo culto de “Alabanda” (esmiuçaremos melhor esse assunto no capítulo: “O Significado da Palavra Umbanda”, no Módulo II).
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